Voltei a Leipzig, no último fim de semana.
A viagem de trem já foi um prazer. A paisagem que via da janela e alguns dos casarios abandonados que passavam por mim, antigos conglomerados de produção socialista, me faziam lembrar a era da Cortina de Ferro.

Mas, fora isso, em Leipzig, quase nada mais remonta ao tempo da RDA. A cidade tem seu charme próprio, e o capitalismo deu dinamismo à cidade. Em meio aos prédios restaurados e canteiros de obras no centro, destaca um belíssimo exemplar de arquitetura pós-modernista: Um cubo transparente é a construção de vanguarda que abriga o Museu de Belas Artes de Leipzig (“Museum der Bildenden Künste”). Lá estive para visitar a exposição de Neo Rauch, artista plástico filho da cidade, que comemora 50 anos de vida com duas exposições monumentais: a que vi, em Leipzig, e outra em Munique.




Neo Rauch pinta, em óleo, telas gigantescas sobre temas que remontam ao passado, recente ou mais distante daquela região, inclusive a percepção de sua infância , um cosmo de símbolos socialistas, fatos e mitos históricos. Sua linguagem é figurativa, com base na tradicional escola de pintura comunista, contudo com elementos da “pop-art”, figuras disformes e carregadas de cores, outras vezes, monocromáticas, que fazem lembrar a dos gibis, movimentando-se entre passado, presente, real e surreal.

Mais tarde, estive em outro lugar incrível. Um antigo gasômetro, talvez do final do século 19, foi transformado em um panômetro (“Panometer”). Explico: o interior da construção cilíndrica, foi transformada numa selva, com árvores gigantescas, animais selvagens e silvícolas estampados em painéis de trinta metros de altura. No centro do antigo gasômetro, uma plataforma serve de posto de observação para visitantes da exposição que, ao passar do tempo, ouvem ruídos da floresta, das chuvas tropicais e um efeito especial de luzes faz refletir um ambiente tridimensional, criando-se a ilusão de estar no meio da selva. Não é à toa que a exposição chama-se “Amazona” e foi concebida por uma artista chamado Asisi.
Na volta, desci do trem e fui caminhando para a Casa das Culturas do Mundo (“Haus der Kulturen der Welt”), onde havia uma programação (“Wassermusik”) dedicada ao Egito (rio Nilo) com música e cinema, onde iria me encontrar com amigos naquela noite. Havia uma multidão e o concerto de Mohamed Mounir estava com ingressos esgotados. Ficamos no bar, à beira do rio, até às 22 horas, quando começou o filme sobre uma diva da canção egípcia, já falecida, chamada Umm Kulthum. Nunca tinha ouvido falar dela antes. Fiquei impressionado com popularidade dela e sobretudo com a número de interessados para assistir ao filme. A sala de projeção estava totalmente ocupada. Quando saí, já por volta da meia-noite, notei que havia um grande grupo reunido no saguão e, para meu pasmo, notei que assistiam ao mesmo filme que acabara de assistir. Certamente, providenciaram uma sessão extraordinária, tamanha a procura por ingressos.
Voltei para casa, caminhando pela margem rio Spree, já que não era longe de onde estava. E, consequentemente, meu domingo começou muito mais tarde do que de costume!