SENTIMENTO FUGAZ
Hoje, à noite, passo, mais uma vez, no apartamento de meus amigos Klaus e Arlete, que saíram de férias com suas crianças para a Áustria, para alimentar a pequena tartaruga que eles deixaram no aquário.
Minha incumbência é a de dar apenas uma colher cheia de uma ração (farelo de peixe seco) para a lindinha. Nada complicado. Entretanto, esta simples missão veio a mexer com meus sentimentos.
Não por eu estar apaixonada pela tartaruga, não é isso! Acostumei-me a chegar ao apartamento, acender a luz, e, já do corredor, ouvir as patinhas da bichinha se batendo n’água, numa sofreguidão, como se quisesse pular daquele aquário e se atirar em meus braços.
Será alegria de me ver? Será fome? Solidão? Chantagem afetiva?
A verdade é que fico ali com ela, alguns minutos, esperando que coma toda a ração que lhe atirei n’água; tento fazer umas gracinhas para ela, pelo vidro do aquário, até chegar o momento mais difícil da visita relâmpago: a despedida!
Viro-lhe as costas, apago a luz do corredor, tranco a porta do apartamento e desço os cinco andares de escadas do prédio. Caminhando, de volta à minha casa, penso todo o tempo naquela pobre criatura, que deixei sozinha, no escuro.
Não teria sido mais sensato colocar a tartaruga num balde e também levá-la de férias? Logo ela que está tão acostumada a brincar com as crianças! Subiria os Alpes, cairia em córregos dos vales austríacos e tomaria banhos de sol do sul. Depois, energizada, como
as crianças e o casal, retornaria ao apartamento de Berlim.
Esta paternidade involuntária me faz refletir sobre a vida dos seres, pelos quais assumimos responsabilidade e afeto, ainda que sejam por quinze dias!