CACHORRO SEM DONO?
Um cachorrinho branco com manchas negras no rabo e na fuça estava agachado em frente da porta do meu prédio. Tinha uma coleira de couro com acabamento em metal dourado. Levantou-se atento, assim que abri a porta para sair à rua, mas logo percebi , no seu olhar de desapontamento, que não era eu quem ele esperava. Depois de caminhar alguns passos sobre a Turmstrasse, virei-me, curiosamente, para mais uma vez olhar para aquele animal, que, naquele momento, farejava a calçada, movimentando-se de um lado para o outro.
Voltei da padaria, um quarto de hora mais tarde, e observei que o cãozinho ainda estava por ali. Não estava mais em frente da porta do meu prédio, mas a três metros dali, sentadinho, muito comportado, com as patas dianteiras esticadas para frente, do lado de uma mesa, que foi colocada do lado de fora, do restaurante vizinho do meu prédio. Á mesa, sentava-se um casal de idosos que ajeitava os talheres, enquanto o proprietário do estabelecimento instalava, no centro da mesa, um grande guarda-sol, listado, em vermelho e branco. Aquele movimento fez o bichinho levantar-se e latir alegremente em direção ao sol daquela manhã de primavera. Ainda com a chave na fechadura da porta do meu prédio, joguei, mais uma vez, o olhar sobre o bichinho, e, aliviado, antes de entrar, para voltar ao meu apartamento, tranquilizei-me ao ver aquele trio em volta da mesa.
O dia estava mesmo para ser aproveitado a cada segundo, iluminado em sua plenitude, fato pouco comum pelas bandas do deste hemisfério, sobretudo naquela ocasião, sob ameaça de um black out diurno, provocado pelas cinzas do vulcão islandês que infernizavam a atmosfera. No espírito de melhor aproveitar o dia, no meu apartamento, troquei de roupa, para outra de temperatura mais amena, sem contudo exagerar na indumentária, pois o ar ainda continuava frio, todo mundo sabia que os ventos estavam vindo da gélida Islândia. Abri as janelas, para renovar o ar, e sai para a varanda que dava para a rua movimentada naquele dia meio de festa. Do outro lado da calçada, passava um grupo de adolescentes barulhentos, explodindo hormônios suplementares, naquela primavera. Um pouco adiante, outro grupo de cidadãos inquietos aguardava o sinal de pedestre abrir para passar para o lado da calçada, onde eu estava debruçado na varanda do meu prédio. Ônibus e automóveis passavam, na marcha lenta permitida para o trânsito daquela rua. Na faixa, mais próxima da calçada, um ônibus amarelo de dois andares passava vagarosamente, atrás de uma bicicleta, que, por sua vez, era impedida, em seu percurso, por uma camionete, indevidamente, estacionada, naquele lugar, para que seu motorista entregasse alguma encomenda comercial. Lancei meu olhar para baixo, do parapeito da varanda, para apreciar o movimento sobre a minha calçada e, enfim, complementar o quadro de uma rotina comercial na minha rua.
Quase tinha me esquecido do cãozinho que me chamou tanto a atenção há poucos minutos. Lá estava ele! A perspectiva que tinha do segundo andar, da minha varanda, fazia tudo ficar meio achatado lá em baixo. E assim via aquele animalzinho, como se fosse um pacote branco, com dois pontos pretos nas extremidades, que ora se encolhia, ora se espichava no solo.
Mas onde estariam os velhinhos que se sentavam ali junto ao cão? As cadeiras ficaram vazias, com exceção de uma que tinha sido retirada da sombra do guarda-sol e estava ocupada por uma jovem, loura, de óculos escuros, que passava o tempo todo com o rosto virado para o sol, sem sequer notar o cãozinho que, de vez em quando, rodopiava em torno de sua cadeira.
Comecei a imaginar o que já desconfiava: estaria aquele animalzinho perdido? Cachorro sem dono?! Nunca tinha visto algo assim aqui, todo cachorro está sempre do lado de um adulto, como se fosse uma criança, às vezes, presos em coleiras, às vezes, soltos, mas na companhia de meninos ou de meninas, sempre ao alcance de um homem ou de uma mulher que, geralmente, são feitos à semelhança do seu animalzinho de estimação, assim se diz sobre a afeição que se sente pelo cão e faz seu dono ficar com a cara do bicho.
Aquela loura de cara para o sol não tinha a cara do cãozinho, era do tipo independente, estava compromissada apenas com o astro-rei, que irradiava sua luz, lá de cima, enquanto aquele cachorrinho parecia carente, escaneava cada transeunte que passava por ele, num movimento de cabeça que ia de cima para baixo, na procura se sua cara-metade. Via duas criaturas, naquele dia de sol, uma perdida para além daquele guarda-sol, outra perdida no tumulto que aquela luz provocava na vida do dia.
Algo muito excitante deveria ter acontecido para fazer o cachorro correr em tamanha disparada para o lado esquerdo da calçada. Correu entre os passantes, numa velocidade constante, sem atropelar ninguém e parou abruptamente do lado de outro cão, ou talvez fosse uma cadela, que estava presa numa coleira e guia de couro entrelaçado, que era conduzida por um homem gordo, vestido com roupa em tons escuros, com um chapéu de feltro preto, um estilo muito conservador. O homem estava agachado, entre vasos de tulipas e alfazemas, enquanto seu animal se virava para o seu homólogo. O cachorrinho, temporariamente sem dono, queria brincar com o aprisionado, passava seu focinho ao longo do corpo de seu parceiro, o movimento fez puxar a guia da mão do homem gordo, de estilo conservador. O homem se recompôs e segurando a guia de seu cão, olhou para o pequeno cachorro que abanava seu rabinho, e, em seguida, virou-se de um lado para o outro, como se estivesse à procura do dono daquele bichinho tão independente, mas que, por outro lado, se mostrava também tão carente. De longe, percebi que o homem disse algumas palavras para o cão e, como se tivesse cumprido seu papel, o de ter feito alguma advertência, ou dado algum conselho, ou mesmo feito a pergunta mais óbvia de onde estaria seu dono, entrou na loja de flores com um arranjo de rosas envolvidos em papel transparente. O cãozinho latiu, bem breve, e, cabisbaixo, percorreu de volta, em marcha lenta, todo o percurso que tinha feito, há pouco, e voltou-se para o mesmo lugar onde estava, quase de baixo de minha varanda.
Lembrei-me do café, que tinha esquecido na cozinha, cujo odor, já alarmante, tinha chegado à varanda. Corri à cozinha, desliguei a cafeteira e tomei o meu café com leite e croissant, sans souci, enquanto folheava catálogos de compras e a correspondência indesejada que colocam na minha caixa.postal. Aliás, este ritual é como tomar banho para mim, não consigo jogar fora aquele entulho de papel, aquela sujeira, sem antes passar tudo em revista. Meus olhos viram sabonete. E isso ocupa meu tempo. Tempo que poderia estar sendo aproveitado ao sol, lá na varanda, por exemplo.
A varanda, naquele dia, para mim, estava associada ao cachorrinho. Voltei imediatamente para o meu posto de observação e não precisei de muito tempo para reconhecer o bichinho entre algumas pessoas que formavam uma fila para tomar o ônibus que se aproximava. Não me pareceu estar com ninguém na fila do ônibus, ao mesmo tempo em que parecia estar com todo mundo. Seu rabinho virava-se de um lado para o outro, como um radar na multidão. Deixava, pacientemente, uma criancinha tentar segurar seu rabinho, o que nunca era possível, pois o rabinho-radar estava ligado, não era hora para brincadeira, mas permitia a brincadeira, talvez para não ofender a criancinha.
O ônibus estacionou, como se estivesse bufando, enquanto sua porta dianteira se abria e despejava na calçada os passageiros daquele ponto.Alguns saíam apressados, outros pareciam estar com tempo disponível. O cachorrinho continuava com seu movimento de cabeca de scanner a todo passageiro que descia do veículo. Achei que fosse entrar no ônibus, depois do último passageiro sair, mas não fez isso. Ficou ali, atrás dos passageiros que agora entravam no M 23, o ônibus que se interliga às linhas de metrô da cidade. O último passageiro, que havia saído do ônibus, ficou parado por um momento observando o cachorrinho, enquanto o último passageiro da fila ainda entrava no veículo. Em seguida, se colocou de frente à porta, como se fosse dialogar questões de paradeiro com o motorista, que nada mais fez que lhe dar um sorriso, o qual desapareceu atrás daquela porta metálica, sanfonada, de cor amarela.
Da minha torre de observação, me sentindo meio salva-vidas, não aguentava mais ficar passivamente assistindo àquela cena. Pensava já em lançar uma mensagem, tipo SOS, quando notei que aquele último passageiro que havida deixado o ônibus e que ficou ali por alguns instantes perto do cão, telefonava de seu celular, enquanto tentava tocar na coleira do animal. Queria ser solidário, juntar-me àquele cidadão, mas, da minha varanda, tornara-me imprestável naquela situação, a única coisa que poderia fazer era estar ali, em pensamento, quiçá emanar uma energia positiva, dali de onde estava, se é que isso ajudaria em alguma coisa. Pelo menos ajudar ao pobre coitado do homem, com o celular, que colocara a palma da outra mão no outro ouvido, uma vez que uma sirene estridente ecoava um ruído tormentoso aos quatro cantos dali.
Era a sirene de uma ambulância para socorro de emergência, um som comum nas grandes metrópoles, seja para apagar incêndio ou socorrer vítimas de acidentes ou enfermos. São viaturas pintadas de vermelho e branco e carregam o número 112, que é o número de telefone de emergência, estampado em suas portas.
O veículo parou abruptamente exatamente no lugar de onde o ônibus acabara de sair. O cãozinho assustado correu para um lado da calçada, enquanto o homem do celular desistira de telefonar e prestava mais atenção, àquela altura, ao movimento que se formara ali próximo ao ponto de ônibus. Os profissionais de socorro saíram apressados do carro e abriram a porta de trás do veículo, de onde também saíram mais dois homens, empurrando uma maca, também vestidos em branco. Entraram correndo justamente pelo portão para veículos que há debaixo da minha varanda e que dá para um pátio atrás do meu prédio, onde há um estacionamento e um anexo residencial. Pareciam participar de uma maratona. Assim como entraram pelo pátio adentro, também saíram correndo dali, minutos depois, empurarrando uma maca com rodas.
A emergência daquela situação não permitiu aos paramédicos impedirem a inesperada chegada daquele caozinho que subira na maca, que estava sendo acomodada na ambulância e sobre a qual jazia um velhinho, de mãos muito magras, muito pálidas, desesperadamente acariciadas e lambidas por um caozinho perdido.
Emídio Paiva (já devia ter postado esta crônica que escrevi no início da primavera)

