Jürgen, Folter Records e Biergarten
Enquanto nos dirigíamos para a “Folter Records”, pelas avenidas de Prenzlauer Berg, cheias de membros das diferentes tribos alternativas de Berlim, aprendia as nuances entre “heavy metal”, “death metal”, e até me aliviei, qdo Henrique , com sua listinha de compras de discos, me disse q rejeitava os NS-Metal, e por isso só iríamos a “Folter”. Pelo amor de Deus, NS-Metal é a facção neonazista dos metaleiros! Já pensou a gente ir comprar discos e ser recepcionado por selvagens, cuja única distração é a de dar porrada em quem-quer-que-seja, principalmente estrangeiros? Eu hein!
Continuamos nossa procura a “Folter Records” pelo cafundel de Prenzlauer Berg. O vendedor, pelo telefone, me tinha dito q não seria tão difícil encontrar o endereço. Fez concessão para mim, ao dizer que esperaria mais uma hora, depois do expediente, pois tentei passar mel na boca dele - no caso dos metaleiros o termo mais apropriado seria mesmo fel na boca - avisando-lhe q estaria acompanhando um metaleiro brasileiro, q toca numa banda “death”, e q compraria muitas bolachonas de vinil!
Lá pelas 19hs, ainda meio perdidos naqueles confins da antiga Berlim Oriental, telefonei para o vendedor, Jürgen se chamava o cara, para pedir mais umas dicas de como encontrar o tal endereço, pois já devíamos estar bem próximos do lugar, mas não encontrávamos a rua. Jürgen atendeu ao telefone, dizendo q já estávamos praticamente na frente da rua. Já pensou? E mais, disse para esperarmos q sairia até a rua para nos apanhar.
Fazia um pouco de calor, principalmente no carro, achei q deveria estacionar por ali mesmo , em qualquer lugar, pois onde estávamos era proibido. Pedi para Henrique e Paulinha descer e ficar por ali mesmo, na calçada, pois eu voltaria logo. O metaleiro da “Folter” apareceria a qualquer momento e seria “fácil” identificá-lo.
Enquanto procurava um vaga para estacionar o carro, fiquei imaginando como poderia ser o tal Jürgen. Será q é mal humorado, sádico, sanguinário? Meu Deus, q responsabilidade minha aquela, com meu primo e Paulinha, toda arrumadinha à burguesa, ali naquele enclave do que restou das ruínas da antiga RDA. Bem, seja o que Deus quiser!
O lugar tinha um certo charme proletário. O casario, ainda incolor dos tempos socialistas, devia abrigar operários daquelas fábricas que tinham faixas vermelhas sobre o portão de entrada com slogans do “Sozialistische Volkspartei”. Vi um posto “Shell” por perto e imaginei o sacrilégio q aquilo significava: naquele lugar, um símbolo capitalista implantado no meio do que restou do comunismo!
E Jürgen, hein?! De repente, aparece um cara no meio do casario, vestido de camiseta e bermudas (ainda bem!) NEGRAS. Estava com um celular e parecia procurar alguém. Só poderia ser o Jürgen, pensei! Parei o carro no meio da rua e acenei para o cara. Ele respondeu. Enfim, já encontrei o lugar, respirei aliviado!
Depois de estacionar, já bem longe do lugar onde tinha visto Jürgen, voltei à pé por umas ruas que pareciam labirinto de quebra-cabeça. Cheguei próximo ao Jürgen e me identifiquei. É você? Perguntou-me Jürgen, estranhando-me, principalmente pelo fato de eu estar por ali vestido de terno, pensei, já q estava vindo direto do trabalho, e não tinha exatamente o perfil de metaleiro. Logo disse q estava ali com meu primo e mulher e que iria buscá-los onde os havia deixado para comprar os tais discos. Tudo bem, tudo bem, reagiu Jürgen, mostrando-me exatamente por qual porta deveria entrar, assim que voltássemos.
Chegamos a “Folter Records”, um apartamento apertado no andar térreo da Rua Richard Wagner, 28 ( que ironia!). Jürgen nos recebeu muito civilizadamente. Tinha uma cara de Jesus Cristo. Foi cortês e atencioso. Deixou-me ir ao banheiro, ofereceu café pra gente...enfim tudo o que não esperaria de um metaleiro “dark” (acho q ele pertence a essa corrente). O lugar, um quartinho apertado, era lotado de discos de vinil, cds, posters, camisetas...tudo em tons “negro claro” e “negro escuro”. A única cor que havia no lugar era a dos olhos azuis de Jürgen. O resto era DARK.
Henrique estava no seu elemento, respirava feliz! Enquanto trocava umas idéias com Jürgen, ia selecionando os discos que queria levar. E papo vai, papo vem, deixa eu ver esse disco aqui, quero aquele ali também... o Jürgen , lá pelas tantas, disse que seria melhor Henrique vir outro dia com mais paciência , já que ele poderia colocar mais novidades na vitrola. Desconfiei que o cara estava querendo nos dispensar. Perguntei-lhe se estávamos lhe atrapalhando em algum compromisso. Respondeu-me, baixinho e educadamente, que sua cadela estava sozinha, com fome, e que também estava muito atrasado para o encontro com sua “Freundin”. Questionei-me, mas não é este o mesmo comportamento “after hour” dos “white collars” metropolitanos?
Henrique compreendeu a situação e, como já tinha reservado uma pilha de discos, ordenou: “vê aí em quanto é que fica?”. Jürgen arregalou os olhos e perguntou: “vai levar tudo isso?”. Por essa ele não esperava. Com certeza, estava acostumado a vender um disquinho, de vez em quando, e , de repente, aparecia ali, no final do expediente, uma cara que engordava seu caixa em mais ou menos 300 euros, em uma pancada só. Ficou todo feliz e , ainda, presenteou Henrique com mais um disco e uma camiseta, vestida imediatamente pelo metaleiro capixaba para uma foto à “heavy metal” junto com seu colega “dark” alemão.
Saímos dali, um pouco mais cedo do que tinha sido previsto para nos encontrarmos com uma brasileira que vive em Prenzlauer Berg. O programa era irmos a um “Biergarten”, já que Gleice morava pertinho de um muito legal, no meio de ambiente de artistas. Henrique e Paulinha estavam atacados pela fome e, acho, meio desconfiados do lugar que escolhi para comer: o tal “Biergarten”. Nizinho, e lá tem isso? Perguntava Paulinha. Quero comer comida pesada, Nizinho, prevenia-me Henrique. Olha, vocês vão conhecer uma coisa emblemática da “Freizeit” alemã, antecipava eu aos desconfiados famintos. Senti a Paulinha se aproximar do mau humor, queria ir embora, estava cansada e com fome! Mas, me deram uma chance!
E ficaram superfelizes, depois de nos sentarmos em um dos inúmeros bancos junto às mesas compridas espalhados debaixo dos carvalhos e castanheiras do Biergarten Prate, de Prenzlauer Berg. Gleice chegou mais tarde, depois de termos comido “Bratwurst” e “Thüringer Wurst” com salada de batatas e “Nudel”. Depois, provamos do prato que ofereci a Gleice os aspargos frescos da estação enroladinhos em presunto. Final feliz! Gostaram da comida e conheceram mais um lugar típico da cultura de lazer alemã.
No caminho de volta para casa, no carro, Henrique ainda energizado pela visita a “Folter Records”, concluiu: Na verdade, aquele pessoal heavy do Brasil leva muito mais a sério o heavy do que o daqui, onde o heavy é heavy mesmo!
Aquela cara de Jesus Cristo de Jürgen, vestido de negro, não saia da minha cabeça.